22 fevereiro 2015

Resenha: Belle - Lesley Pearse


Belle
Lesley Pearse
Novo Conceito
560 páginas
☺☺☺☺☺
Sinopse: Londres, 1910.
Belle, de 15 anos, viveu em um bordel em Seven Dials por toda sua vida, sem saber o que acontecia nos quartos do andar de cima. Mas sua inocência é estilhaçada quando vê o assassinato de uma das garotas e, depois, pega das ruas pelo assassino para ser vendida em Paris.
Sem poder ser dona de seu próprio destino, Belle é forçada a cruzar o mundo até a sensual Nova Orleans onde ela atinge a maioridade e aprende a aproveitar a vida como cortesã. A saudade de casa — e o conhecimento de que seu status como garota de ouro não durará muito — a leva a sair de sua gaiola de ouro.
Mas Belle percebe que escapar é mais difícil do que imaginou, pois sua vida inclui homens desesperados que imploram por sua atenção. Espirituosa e cheia de desenvoltura, ela tem uma longa e perigosa jornada pela frente.
A coragem será suficiente para sustentá-la? Ela poderá voltar para sua família e amigos e encontrar uma chance para a felicidade?
Autora # 1 best-seller, Lesley Pearse criou em Belle a heroína de nossos tempos: uma mulher forte que luta por seus direitos em um mundo perigoso.

Depois de ler Belle, eu quero dizer o seguinte a Lesley Pearse: “Cara Lesley, escreveste um romance completamente envolvente e espetacular!”. Não conhecia o fazer literário de Lesley, mas... caramba, com Belle, foi amor à primeira vista. De verdade, fazia bastante tempo que eu não lia nada tão completo e tão espetacular. Lesley construiu um excelente romance que detém variados elementos: tráfico internacional de mulheres para fins de prostituição nos anos de 1910, investigação, violência física e verbal, reviravoltas impressionantes, personagens fortes e admiráveis e uma trama bem intricada, bem amarrada, que faz o leitor prender a respiração a cada momento delicado da obra. Lesley ganhou mais uma fã!
O livro contém 560 páginas, é narrado em terceira pessoa e se divide em 39 capítulos. Eu li em e-book, mas estava ciente do número de páginas e confesso que me preocupei um pouco com isso porque, se o livro não fosse bom o suficiente, com certeza a leitura ficaria arrastada e eu demoraria “mil anos” para terminar de lê-lo. Mas que preocupação besta, a minha! Belle, de modo algum, é um livro arrastado. Devorei essa obra-prima de Lesley, ao mesmo tempo em que não queria que ela acabasse. A narrativa em terceira pessoa é uma boa porque o leitor tem uma dimensão maior sobre a estória como também acerca dos personagens.
Como a sinopse denuncia, Belle mora num bordel, e sua mãe, Annie, é a administradora do lugar. Annie, por ter as suas razões que, aos poucos, serão reveladas ao longo das páginas, protege Belle para que ela não tenha contato com o que ocorre no andar de cima de sua casa, dando ordens extremas para que a garota não se aproxime do primeiro andar no horário de funcionamento. Ainda que Belle tivesse curiosidade em saber o que acontecia na Casa de Annie e o que as garotas que moravam lá faziam, sempre respeitava as ordens da mãe e acatava os conselhos de Mog, a empregada de Annie que Belle considerava como a sua verdadeira mãe, pelo modo caloroso com o qual a tratava e cuidava dela, muito diferente da fria Annie.
No entanto, por acidente, certo dia Belle acabou descobrindo em que consistia um bordel. Da pior forma possível, é bom que se diga. Sem ser vista, ou era o que ela acreditava, Belle presenciou Mille, uma das garotas de sua mãe, ser violentada e assassinada. Foi, então, que a sua inocência foi quebrada e a sua vida, antes tão pacata e tão monótona, virou de cabeça para baixo. Ela foi raptada por Kent, o homem que matou Mille, e foi vendida para ser prostituta, inicialmente em Paris, posteriormente em Nova Orleans. Belle vivenciou o inferno em Paris. No bordel da malévola Madame Sondheim, foi abusada não uma, não duas, não três vezes, mas cinco vezes, por cinco brutos homens, quando era praticamente uma criança.
Após ficar muito doente em decorrência de tanto abuso e de ser cuidada por Lisette, personagem que tem a sua cota de importância na estória e que, a contragosto, faz parte da organização de tráfico de mulheres, Belle é levada por Etienne, outro personagem que é deveras importante na estória e na vida de Belle. Ele trabalha para organização quase que obrigado, por meio de ameaças. Faz parte dessa rede quase que por questão de sobrevivência, não só pela sua própria, sobretudo pela de sua mulher e de seus filhos. Belle e Etienne criam um laço improvável na viagem até Nova Orleans. Um ponto que briguei com a Lesley mentalmente. Como Belle pode se afeiçoar por Etienne, pessoa que a está levando para ser prostituta em um local ainda mais distante de sua família? Lesley Pearse, com muito tato, nos apresenta Etienne e todas as suas razões. Não que justifique, mas de certa forma explica a sua personalidade e os seus atos. Os dois se interessam genuinamente um pelo outro, contra todas as possibilidades e a lógica.
 Ainda assim, Etienne precisa cumprir o seu trabalho e pensa, realmente, que está deixando Belle em um local bom e seguro, na casa de Martha. Até mesmo Belle, por uns tempos, se deixa iludir e acha que a vida que foi empurrada a viver pode ser boa e levá-la a riqueza. Como nem tudo são flores, Belle mais uma vez é surpreendida ao saber como realmente funciona a casa de Martha. E, assim, Belle começa a sua saga de confiar nas pessoas erradas, iludida de que elas serão seu passaporte para voltar para casa.
Belle sofre muito, muito mesmo na sua jornada como cortesã e prostituta. Há momentos em que ela julga estar na glória e se deixa ludibriar por uma vida glamorosa, mas certamente perigosa. Ela é destemida e usa todos os seus atributos e lábia para tentar se safar de todas as emboscadas nas quais acaba caindo, ora por causa da sua ingenuidade, ora por causa da sua ambição, ora por ambas as coisas. Nem sempre Belle consegue e precisa de ajuda para sair de grandes apuros. Enquanto Belle vivencia os dissabores e as delícias da sua vida como prostitutas, há uma força-tarefa montada por sua querida Mog, que, por anos a fio, não desistiu de encontrá-la. O jornalista Noah, a pedido de Mog, foi quem começou a investigação e, tempos depois, descobriu o desaparecimento de outras meninas, provavelmente ligadas ao desaparecimento da própria Belle. Jimmy foi uma das pessoas mais incansáveis na busca por Belle. Ele, que teve pouco contato com Belle, mas que jamais conseguiu esquecer a menina de olhos azuis e cabelos escuros encaracolados. Um rapazote apaixonado é capaz de ir aos céus ou aos infernos para encontrar a sua amada. O tio de Jimmy, Garth, inicialmente apresentado como um homem rude e intragável, também evolui bastante no decorrer da trama. E, de alguma maneira, todos os acontecimentos da vida de Belle mudaram não só a sua própria vida, como também a das pessoas que entram em contato com ela. Quase sempre para melhor, é bom frisar. Mog desabrochou para vida. Annie deixou que Belle quebrasse um pouco da barreira que sempre as separou. Jimmy se tornou um homem forte, bonito e aguerrido. Garth, o tio de Jimmy, se transformou em um novo homem quando o caminho de Mog cruzou o seu. Noah foi de um simples investigador de seguros a um jornalista de sucessos, cobrindo, com maestria, casos grandiosos e polêmicos. Etienne e Jimmy são os grandes homens na vida de Belle, que a salvaram em momentos cruciais de sua vida e, por essa razão, disputam um lugar muito precioso em seu coração. Etienne é a paixão treslouca, Jimmy é o amor, o porto seguro.
É um livro repleto de fortes emoções. Há trechos com descrições de sexo, ora explícito, ora violento, ora nauseante. Considero uma leitura válida para sair da zona de conforto. Infelizmente, a questão do tráfico de pessoas existe e deve ser investigado, e os culpados, punidos. Traficar pessoas é hediondo. As pessoas que têm as suas vidas bagunçadas pelo tráfico humano precisam ser muito fortes para não sucumbirem às lembranças dolorosas e aterrorizantes.
Sei que falei de Belle de um modo pesado, embora realmente tenha elementos assim em toda a trama, não é tudo o que o livro oferece. Há momentos de doçura, de encanto, de poesia e de amor na obra de Lesley também.
Sim, eu realmente adorei o livro! Há muito tempo que não lia nada tão arrebatador e inquietante. Parabéns a Lesley Pearse, grande romancista inglesa, por essa obra estupenda. Um romance de época muito bem feito. Lesley, pelo que pude observar, fez uma ótima pesquisa histórica, para ser fiel aos cenários e aos lugares que retratou em suas devidas épocas. O toque descritivo dela é na frequência certa. Nem descrições demais nem de menos: na medida exata para propiciar ao leitor uma visão completa das cenas contadas. Novo Conceito publicou Belle em 2012, com uma capa muito bonita e uma diagramação bela. No Skoob, pode-se ver que a maioria das pessoas deu nota máxima para o livro. Mais uma prova de que é um livro verdadeiramente encantador.
Há um segundo livro de Lesley, que é quase como uma continuação e uma finalização da história de Belle. Chama-se Entre o amor e a paixão. A Novo Conceito, quando ainda era parceira do blog, me enviou um exemplar. Quando eu finalizar a leitura de outros livros que também quero muito ler, certamente o lerei e farei uma resenha com a finalidade postar aqui no blog.

Erica Ferro

 

Book trailer:

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Um abraço da @ericona.
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20 fevereiro 2015

Viva. Já!


Vida frágil. Vida breve. Vida crazy. Vida bad. Vida boa. Vida dura. Vida insana. Vida de aventura. Vida.
Não entendo do viver com maestria. Entendo, apenas, que a existência é um passeio com muitas emoções, boas ou não. 
Viver pode ser pesado. Só cada um sabe o esforço que é carregar o seu fardo.
Na vida, em alguns casos, o certo e o errado são relativos. O que vale pra mim, pode não valer pra você. 
E o que a gente faz?
A gente vive. Do jeito que a gente pode. E a gente ajuda um ao outro, porque na vida é muito bom saber que se tem parcerias.
Em muitos momentos, dividir fardos é essencial para nos mantermos de pé.
E a vida é agora, e já foi. Os ponteiros do relógio da vida nunca param. 
Viva agora. Viva já.
Diga o que quer agora, porque o instante passa num piscar de olhos e depois vira passado mal aproveitado.

Erica Ferro

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09 fevereiro 2015

Resenha: Twittando o amor - Teresa Medeiros



Twittando o amor
Teresa Medeiros
Novo Conceito
208 páginas
☺ ☺ ☺ ☺
Sinopse: Abigail Donovan é uma escritora de sucesso. Ela quase ganhou o prêmio Pulitzer e até foi elogiada no programa da Oprah. Então, por que ela passa os dias e noites escondida no chiquérrimo condomínio onde mora, na companhia de seus dois gatos, sem conseguir escrever?
Quando o seu editor a obriga a entrar no mundo das redes sociais para expandir seus horizontes, Abby imagina que vai ser obrigada a conversar com adolescentes que teclam escondido do porão de casa. Mas ela acaba conhecendo Mark Baynard, um professor britânico sexy, bem-humorado e inteligente que está viajando pelo mundo em busca de aventura. Abby tenta resistir ao seu charme, enquanto Mark começa a quebrar a resistência dela aos pouquinhos... Inclusive a resistência a se comunicar por meio de mensagens curtas.
Agora que Abby voltou a escrever - e a viver -, ela descobre que Mark guarda um segredo que poderá mudar para sempre a vida dos dois.


Quando a editora Novo Conceito, que era parceira do blog (que tristeza, o Sacudindo não foi selecionado para parceria 2015 com a Novo Conceito )= ) , me enviou Twittando o amor, da Teresa Medeiros, juntamente com outros lançamentos, fiquei um tantinho curiosa para ler essa estória. É que já há alguns livros nesse formato, de paixões despertadas no ambiente virtual, mas ainda não havia lido nada desse tipo. Pensei: "É a chance de conhecer esse estilo de narrativa!". Não esperava nada fantástico ou incrivelmente emocionante, por presumir que seria uma leitura clichê e leve, mas que, mesmo assim, poderia ser bem gostosa e bem boa. E não é que eu acertei? 
Goodnight Tweetheart, no original, foi publicado em janeiro de 2011. Desde então, Teresa conquistou os corações de muitos leitores e críticos. Além de ser uma autora best-seller, Teresa venceu por duas vezes o PRISM e ganhou também por duas vezes o Prêmio Waldenbooks para best-seller de ficção.
Adentrando agora no enredo propriamente dito, conhecemos Abigail, ou, para os íntimos, Abby Donovan. Abby é uma escritora que alcançou um sucesso estrondoso com o seu primeiro livro. Quase, notem, quase ganhou o prêmio Pulitzer. No entanto, Abby não conseguiu produzir mais nada depois de seu primeiro livro, ficou estagnada e se sentindo incapaz de produzir algo tão bom quanto o seu "primogênito". A sua editora a incentivava a escrever, criou até mesmo uma conta no Twitter, com o intuito de estreitar os laços entre os leitores e Abby, como também fazê-la voltar a escrever, ainda que inicialmente por meio de tweets. Assim que se conectou ao Twitter, Abby conheceu um homem cujo nome era Mark Baynard. Um homem bacana, de humor fino e tiradas pra lá de ótimas. Mark, vendo que Abby estava bem perdida no Twitter, se prestou a ensiná-la a usar essa ferramenta de forma mais eficiente. E, assim, entre aulas de desbravamento de Twitter, eles foram se conhecendo melhor, criando um laço de amizade (entre outros laços *risos*). Um parêntese para dizer que eu ficava toda boba quando eles se despediam a cada conversa de um modo todo fofo e o Mark sempre finalizava com "Boa noite, Tweetheart!". Quero encontrar alguém para chamar de Tweetheart também! E agora, faço o quê?
Gaiatices à parte, continuemos. Ambos, entre flertes e conversas divertidas, abriam um pouco de seus corações, contando um pouco de suas realidades, ainda que boa parte da trama seja envolta por mistérios, porque nenhum nem outro quer revelar muito de si mesmo. Entretanto, quando a paixão surge, as amarras se soltam e o medo sai de fininho e dá espaço para a confiança e para o envolvimento entre duas pessoas que se gostam de verdade.
Teresa Medeiros sabe narrar de uma forma bastante leve e gostosa, e ainda que a estória que esteja contando não seja pra lá de incrível ou algo fora do comum, ela sabe prender o leitor. Acredito que Abby e Mark foram bem trabalhados, na medida possível, já que a sua comunicação se dava por meio de tweets. Abby aprende com Mark sobre ser mais corajosa e a faz entender que a vida é um contínuo ganhar e perder, e isso não é motivo para ter medo de se arriscar e viver com mais vigor. Na minha concepção, quando algo está em jogo, precisamos tentar, porque se não tentarmos, é que perderemos mesmo. O que nos resta é tentar. O que virá depois é mistério, o agridoce mistério da vida. Estamos aqui para vivenciar as diversas emoções e sensações que a vida pode proporcionar. Abby mostrou a Mark que ninguém precisa sofrer sozinho. Fez-o ver que demonstrar fraqueza e deixar que alguém o segure nos braços num momento difícil não é motivo de vergonha. Os dois se conheceram em momentos complicados de suas vidas e ambos se ajudaram de forma muito bonita e sincera.  O "segredo" de Mark, no fim das contas, foi um portal de crescimento para os dois, deu a oportunidade de ambos retirarem as grades que "protegiam" os seus corações e quebraram o muro que havia em suas almas, possibilitando o aprendizado conjunto e a superação dos seus obstáculos mais difíceis.
É um livro que fala de amor, sim, mas não só do amor romântico. Um elemento presente é o amor fraternal. Outros elementos também estão inseridos em Twittando o amor: a saudade, a superação de problemas familiares e o restabelecimento da força para seguir em frente, seja lá o que houver para ser enfrentado ao longo da estrada.
Fica aqui a minha indicação para os que gostam de um romance simples, porém bonito e que causa aquele singelo aceleramento no coração e que faz com que o leitor suspire sem nem perceber.

Erica Ferro

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06 fevereiro 2015

Libertes o meu nobre cavalheiro!


Não alimento o hábito de mentir, ainda mais para ti, muito menos agora, nobre cavalheiro. Tu, por muito tempo, foste a minha maior fonte de doçura e inspiração. Ver-te e estar em teus braços invariavelmente me fazia inenarrável bem. Não que isso tenha mudado completamente, meu cavalheiro, apenas passei a ver o que antes a paixão desconcertante ocultava de mim: a sua considerável coleção de excentricidades. Se eu queria que tu fosses perfeito? Não, não queria tal coisa. Eu sei que a graça reside justamente em crescermos, evoluirmos e sermos melhores a cada dia sem nunca, porém, alcançarmos a perfeição. No entanto, eu queria que tu conseguisses abdicar um pouco das tuas excentricidades por ti mesmo, pelo teu bem, pela tua plenitude. Tu não notas que algumas das tuas esquisitices não te fazem bem e, em certa medida, te afasta do que realmente importa, inclusive te impele para longe de ti mesmo? 
Apesar de os teus melhores componentes serem a doçura, a bondade e a capacidade infinda de sonhar, tu praticas a autossabotagem. Tu podes duvidar, mas te vi como alguém jamais te viu. E te vejo de um jeito tão além dos que os olhos físicos podem ver, que se eu o dissesse, tomarias um grande susto.
Tu colocaste uma capa que julgas protetora, mas que tem a função de encobrir teus medos e fragilidades. Tu ensaias quase que todas as tuas falas e passos. Só comigo que tu atingiste uma segurança de ser quem tu de fato és: um ser humano como outro qualquer, feito de receios, fraquezas e sentimentos diversos e adversos. E, ainda assim, e por ser assim, é quem eu quero tanto bem.
Quero que tu te mostre aos outros como tu te mostras a mim, com naturalidade e com verdade. Porque, meu nobre, não é feio assumir a sua humanidade, leste isto? Não é feio e nem motivo de vergonha. 
Vergonhoso é passar a vida toda escondendo a própria personalidade, dizendo o que querem que tu digas e fazendo o que almejam que tu faças.
Mais do que tu mesmo, eu sei da tua capacidade de largar todos os ilusórios desejos de agradar a gregos e troianos e de ser bem quisto do Oiapoque ao Chuí. Sei que tu és capaz de libertar o meu real nobre cavalheiro, que só eu vi e vejo e sei que está em ti, no mais profundo do teu ser.
Graves isto em teu coração: não importa a proximidade de nossos corpos físicos, mas sim a ligação de nossas mentes e o laço de nossos corações.
De minha parte, há um amor bonito e puro dirigido a ti. Creio que sempre haverá.
Contudo, o amor precisa ser cuidado, para que não feneça nem se entristeça. Amor entristecido é uma doença deveras mortal, sabes? Não te quero triste nem me quero triste, então ajuda-me a te ajudar, auxilia-me a te conduzir por um caminho mais fidedigno de quem tu és, que seja mais bonito e bom para ti, porque assim também o será para mim, para nós.

Da sua dama,
Giovanna Marianna
* * *

(Erica Ferro)

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03 fevereiro 2015

Resenha: O fio das missangas - Mia Couto


O fio das missangas
Mia Couto
Companhia das Letras
152 páginas
☺ ☺ ☺ ☺  
Sinopse: "A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."
"A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto "O fio e as missangas" define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor.
A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura.
Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. "Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida", diz a narradora de uma dessas belíssimas "missangas" literárias. (fonte)



Quão bom foi conhecer Mia Couto nesse início de 2015! Foi tão gostoso, tão maravilhoso, que me é difícil escrever as impressões acerca de O fio das missangas, um livro de poucas páginas, mas repleto de poesia e intenso em sentimentos vários. Esses 29 contos despertaram em mim emoções mistas: encanto, tristeza, dor, revolta, compaixão, nostalgia e amor. Por essa razão, é custoso ordenar as sensações e as ideias para compor esse texto. Ainda assim, tentarei.
Não conseguiria tecer comentários sobre cada conto, mesmo porque o post ficaria imenso. Prefiro elencar aqui alguns contos que me arrebataram de uma forma singular e que as suas palavras me tocaram de um jeito que há muito não me sentia tocada. É estranho eu ter tanta convicção em dizer que Mia Couto é genial, porque um livro dele durante toda a minha vida. Contudo, eu já tinha escutado falar sobre ele, e foram comentários elogiosos e empolgados. Então, dei uma chance a esse livro sem muita expectativas, não me deixando empolgar muito pelas críticas positivas que havia visto, pois queria tirar as minhas próprias conclusões e, de fato, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito nesse começo de 2015 em relação a literatura. 
Os neologismos, o lirismo, a poesia e a intensidade dos sentimentos mais profundos estão presentes em cada palavra de cada dos 29 contos. Em Meia culpa, meia própria culpa, por exemplo, Maria Metade conta a sua história (digito até com 'h', porque é um relato tão palpável, é tão fácil de se encontrar uma Maria Metade bem próximo a nós), história de metades, de privações e de sonhos não realizados. Maria nunca se sentiu inteira, sempre ficou "entre o meio e a metade". Nunca além disso. Uma mulher de infância difícil, que ouvia frequentemente que deveria sonhar com cuidado, porque "pobre não sonha tudo, nem sonha depressa". Sem amor, sem filhos, sem plenitude, nem no seu mais ousado ato de coragem (ou outro adjetivo, dependendo do ponto de vista), que eu não direi aqui para não revelar ainda mais detalhes do conto do que já revelei até agora, conta com tristeza, melancolia e um ar de frustrada sonhadora sobre o seu passado, presente e os seus sonhos que foram condenados a existirem apenas no seu pensamento, visto que nunca tiveram a oportunidade de pular para realidade; revela também as alegrias que nunca teve, dos desgostos sempre presentes e deveras latente. A história de Maria me doeu de uma forma tão grande. Conheci algumas Marias que eu diria ser semelhantes a Maria de Mia Couto. E, baixinho, me entristeci por elas. Ao mesmo tempo que me entristeci, me revoltei. Por que algumas pessoas são privadas até mesmo de se sentirem vivas, de se sentirem plenas? O sistema é cruel e esmagador, marginalizando cada vez mais quem já vive à margem da sociedade, sem dar oportunidade a quem só deseja um lugar mais calmo, florido e bonito para sentir o que é viver de verdade.
Os olhos do morto foi outro conto que dialogou comigo: causou tristeza, pena e uma profunda revolta. Quis colocar a mulher, tão sofrida, nos braços, e chacoalhar o homem que nunca a amou, que só a ignorava e a oprimiu. Que destino cruel e horrível o de tantas mulheres, a de serem reprimidas todos os dias, de terem seus direitos e liberdades tolhidos! Revoltem-se, mulheres! Não se calem! Não deixem que silenciem as suas vozes, não permitam que lhe digam o que fazer ou como viver! Nenhum ser humano é superior a ninguém. Todos somos iguais em direito e assim devemos ser tratados. Ninguém nasceu para ser objeto de outro alguém. Somos livres para ser quem somos. Somos livres para amar e sermos amados com ternura e respeito. Ou, ao menos, deveríamos ser. Lutemos por isso, pois.
Entrada no Céu... Ai que dó me dá de amores incorrespondidos! Não bastou ser incorrespondido, o nosso personagem e narrador foi vítima de um amor que o fez sangrar e penar. Ah, Margarida! Um gesto teu, apenas um, teria evitado tanto sangue, tanta dor e desolação! 
Os machos lacrimosos me chamou a atenção porque me lembrou do livro Clube da Luta, de Chuck Palahniuk. No conto de Mia, homens se encontravam no bar de Matakuane para conversar, fazer piada e rir um bocado, até o dia em que um deles, Luizinho Kapa-Kapa, se pôs a chorar ao contar um causo triste, tão triste que ele todo transmutou-se em lágrimas tamanhas, que num dado momento não se ouvia mais as palavras proferidas da boca de Kapa-Kapa, apenas o choro descontrolado. Depois disso, se encontravam não mais para "fabricar risadas", mas sim para "partilhar lamentos, soluços e lágrimas". E descobriram o benefício do choro, deram a chance dos sentimentos emergirem e transbordar pelos olhos, porque homem pode e deve chorar para externar suas dores e suas mazelas. Não é fraqueza nenhuma falar do que rasga a alma. Pelo contrário, é coragem e vontade de aliviar o nó na garganta e o aperto no peito. Em Clube da Luta, o narrador-personagem, singular, de mente transtornada e alma bagunçada, comparecia a vários grupos de apoio, destaco um que se chamava Homens Unidos, que me fez lembrar do conto de Mia. Nesse grupo, homens, repletos de tristezas, dores, dissabores e desolações se juntavam, aos pares, para chorar abraçados uns aos outros. Chorar tudo o que fosse pra chorar, tudo o que houvesse entalado no peito ou na garganta. E era um alívio para todos eles. Uma coisa essencial na vida é a seguinte: verdade. Verdade para sorrir quando for para sorrir, chorar quando for para chorar, sonhar quando for para sorrir. Porque o sofrer e chorar são elementos que, num primeiro momento abala e enfraquece, mas depois estrutura e fortalece.
Uma questão de honra fala da solidão compartilhada por Siwale e Esmerado Fabião, cada qual com suas dores e a sua coleção de sonhos engavetados e felicidades não-acontecidas. Com uma delicadeza e destreza, Mia Couto traça mais um conto que nos emociona, conto que retrata esses dois amigos, que eram o mundo um para o outro e nos mostra como os jogos de tabuleiro para esses dois eram a maneira que acharam de espantar a solidão em que viviam. A história desses dois velhinhos é capaz de arrancar suspiros lamentosos, de apertar o peito e de fazer a gente chorar um pouquinho num canto, em silêncio. A vida é rara, mas a "palavra, a honra e a amizade" fazem-na irresistível de ser vivida.
Mia Couto me ganhou, sem esforço, é bom frisar. Em O fio das missangas, Mia passeou pelos vales mais sombrios das almas e desenhou os sentimentos humanos mais conflitantes com uma verdade tão forte, que o leitor sente no arrepiar da pele e na pulsação ora fraca, ora forte do coração ao navegar por mares de sensações e ideias que raramente ousamos pensar, porque ser mares caudalosos, tão cheios de amor quanto de dor, porém que sabemos, no íntimo, que por eles é preciso, é realmente preciso. Na outra margem, não seremos mais os mesmos que éramos no começo e durante a travessia.
Se você, caro(a) leitor(a), aprecia uma leitura intimista, profunda e poética, fica aqui a dica. Leia Mia Couto, porque ele é realmente um escritor fabuloso!
Já sinto vontade de ler mais e mais títulos desse grande escritor moçambicano!

Erica Ferro

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01 fevereiro 2015

Sobre a verdadeira bênção


Certa vez alguém disse que a ignorância é uma bênção, eu diria que a ilusão também tenta ser.
Nas redes sociais – e para além dela –, nota-se uma ânsia por parte de muita gente em reinventar a sua realidade, excluindo os defeitos e as partes obscuras, e exaltando, exacerbadamente, as qualidades, mentindo para os outros e, sobretudo, para si mesma, o que é mais preocupante.
Algumas criaturas, à medida que mais e mais postam assertivas de felicidade e prosperidade, transmutam a vida numa espécie de teatro, assumindo personagens incrivelmente bem-sucedidos, contentes e que gozam de uma harmonia imensa nos mais diversos setores de sua vida.
Entretanto, quando estão sozinhos consigo mesmos, caem em si e sofrem, calados, envergonhados das suas mazelas, como se sofrer fosse extremamente indecente e feio, mas, ainda que o sofrimento seja grande e a desolação, desconcertante, preferem perseverar na ilusão cômoda a externar os seus ferimentos e buscar por uma existência de fato feliz, que pode até não ser um mar de rosas contínuo, mas é real, é verdadeira, é palpável.
A vida, para ser apreciada, não precisa ser perfeita. Aliás, se fosse perfeita, duvido que fosse interessante, afinal não existiriam desafios a serem vencidos, metas a serem atingidas e obstáculos a serem transpostos. 
Anunciar aos quatro cantos uma vida perfeita, por medo do olhar de compaixão de outrem, é mais triste do que assumir o quanto se é humano, e humano sangra, se zanga, chora, sofre, mas é capaz de superar qualquer coisa quando se propõe a esse fim.
Que a vida seja dura, igual a rapadura, e desde já me desculpo pela rima tola, mas que também seja doce e que valha a pena.
Toda negatividade pode ser convertida em positividade, basta que se use a criatividade. Só a mentira não pode ser convertida em verdade.
Por essa razão, a bênção não vem da ignorância ou da ilusão, mas sim do se jogar no que é real, passar pelos becos sombrios da existência, a fim de chegar, lá na frente, a um lugar bonito e repleto de luz, de flores e de deliciosos sabores.
Viver, de forma a sentir tudo o que for para sentir, é que é uma bênção.

Erica Ferro

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