18 julho 2015

Confissão extraordinária

Fingirei que vocês, meus leitores, são padres e aqui é um confessionário.
Preciso lhes contar que estou lendo Extraordinário. E está sendo extraordinária a forma como estou me identificando com esse livro. Eu já sabia que seria assim, por isso havia em mim uma mistura de medo e muita vontade de ler esse livro. É que Auggie, o personagem central da estória, tem uma deformidade facial congênita. As pessoas se chocam ao vê-lo; crianças gritam, choram e correm; adultos disfarçam o susto e agem exageradamente agradáveis com ele. À medida que leio, simulo uma conversa com Auggie e quase sempre digo “Eu sei exatamente como você se sente. Eu já passei e às vezes ainda passo por isso...”.
O primeiro parágrafo não faz parte da confissão, como perceberam. Foi uma introdução, uma enrolação. A confissão começa agora. Acredito que a maioria das pessoas que me lê sabe que sou deficiente, mas jamais falei sobre isso do modo que farei agora: nasci com uma síndrome denominada Moëbius. Ela me causou paralisia facial bilateral e prejudicou a minha fala. Möebius afeta os nervos cranianos responsáveis pela mímica facial e pela boa dicção (entre outras coisas). Também em decorrência da síndrome, nasci com má formação no braço esquerdo e na perna direita (resultando na ausência da mão esquerda e do pé direito), prejudicando também, em diferentes graus, a força muscular dos quatro membros. Ufa! Acho que tirei um enorme peso da minha alma agora! Quando eu falava sobre a minha deficiência, evitava ao máximo usar o termo Möebius. Por quê? Porque, ao pesquisar no Google sobre o que tenho, recebi alguns resultados bem... deprimentes. Alguns sites dizem que a minha síndrome é bizarra, é horripilante, é sinistra. Ao que parece, ter estrabismo, epicanto nos olhos, dentes um pouco desalinhados e uma boca esteticamente diferente é bizarro, é horripilante. Não queria que as pessoas fossem procurar a respeito do que tenho e dessem de cara com esses resultados. Eu não quero ser vista como bizarra, embora alguns seres me considerem assim. E é por isso que evitei por esse tempo todo escrever a palavra Möebius.
No entanto, eu tenho Möebius. Möeeeeebius. Möebiiiiiius. Möebiuuuuus. Por que esconder? Afinal, não é tudo que eu sou, apenas faz parte de quem eu sou. Foram-se os dias que os olhares curiosos, assustados ou perturbados por causa da minha aparência física me incomodavam ao ponto de eu querer chorar e me enfiar numa caverna e nunca mais sair de lá. Foram-se os anos que eu não saia de casa com medo da reação das pessoas ao me verem na rua. Foram-se os tempos que Möebius fazia com que eu criasse barreiras entre mim e o mundo. Foram-se para sempre, amém.
No auge dos meus 25 anos, posso dizer que cresci muito. Hoje, passa o seguinte pensamento pela minha cabeça: as pessoas sempre vão me olhar diferente num primeiro momento. Afinal, a minha aparência é incomum nesse mundo plastificado, de rostos cheios de botox, de bundas e peitos siliconados. Por que a opinião de pessoas que eu não conheço e que muito menos me conhecem deveria me incomodar tanto a ponto de eu ter vergonha de quem eu sou? Bobagem das maiores que há no mundo!
Mais uma confissão. Ainda não me amo como deveria. Há dias em que gostaria de ter um rosto esteticamente bonito, dentro dos padrões de beleza vigentes. Entretanto, aprendi a me respeitar e a reconhecer as minhas qualidades e, especialmente, a parar de me depreciar, coisa que fazia frequentemente anos atrás.
Se eu tivesse que resumir como é ter Möebius, seria mais ou menos assim:
Ter a síndrome de Möebius não é maravilhoso, mas também não é o fim do mundo. Na verdade, Möebius nos dá a chance de descobrir grandes valores. Entre eles, é que o que vemos não é mais que uma casca. O essencial é invisível aos olhos. Sorrir ultrapassa o ato de esticar os lábios e mostrar os dentes. Eu não consigo sorrir com a face, mas todos os dias gargalho adoidado por aí com as coisas loucas que faço e que a vida me faz passar. O meu sorriso mora no rosto daqueles a quem faço bem e que me fazem bem também. Minha voz é enrolada, mas ainda assim falo português e, com jeito, dá pra compreender. Então, meus amores, o que tenho a temer? Nada!
Levou tempo pra eu entender isso, e levou muito mais tempo pra que eu conseguisse praticar isso. Mas, no frigir dos ovos, isso importa? O que vale é que agora estou aqui, na estrada da vida, voando sobre as rodas do meu possante alucinado, aproveitando o que de bom a vida tem a oferecer, distribuindo risos, compartilhando com os transeuntes o que de melhor há em mim.
A vida é isso: viver (de preferência, sem medo; ou, ainda, superando os medos). Afinal, “o perigo existe, faz parte do jogo. Mas não fique triste, que viver é fogo. Comece de novo...”, bem diziam Vinícius e Toquinho. Eu que não sou besta de não dar ouvidos a eles!
Agora, para ilustrar esse post, quero deixar aqui uma foto bem marcante. Foi a primeira vez que vi pessoas com a mesma síndrome que eu. Na foto, Amanda, Gabriel e Julia (uma intrusa no meio dos esquisitos). A Amanda, inclusive, publicou um livro que conta um pouco da síndrome e que também traça como foi a sua vida até o momento em que o escreveu. O Gabriel é um rapaz muito louco, que detesta fotos e sempre revira os olhos ou faz algo bem tosco pra ferrar a foto. E escreve muito bem, à la Buk, essa é a parte que vale frisar.

Melhor legenda pra essa foto: "Festa estranha, com gente esquisita.".Sim, somos esteticamente estranhos. Temos uma sí...
Caso tenham dificuldade em me identificar na foto, sou a mocinha doce de camiseta adidas cinza com listras laranja

Por fim, acessem o site da Associação Möebius do Brasil - AMOB e conheçam mais sobre esse mundo inexplorado das criaturas moebitas, injustamente (?) chamadas de bizarras.
Dedico esse texto aos meus amigos moebitas (forma meiga que achamos de nos chamarmos) e aos seus familiares.
Estamos juntos nessa longa e louca estrada da vida!

Erica Ferro

15 julho 2015

TAG: Confissões de uma Bibliófila

Olá, meus companheiros de blogosfera! Tudo certinho?
Nesse mundo bloguístico, há várias tags; algumas são bacanas e interessantes, outras nem tanto. Sempre que vejo uma tag legal, penso em responder, mas então esqueço e acabo não respondendo. Uma que eu sempre quis responder é a tag Confissões de uma Bibliófila. Para quem não sabe, bibliofilia é o amor aos livros. E amor aos livros é o que não falta em mim! Quem me acompanha há mais tempo ou me tem nas redes sociais, sabe que eu sou louquinha por livros. Adoro ler e adquirir livros. Acredito que a minha compulsão por livros melhorou um pouco, mas ainda sou uma pessoa suspeita e com tendências maníacas por livros.

Depois de ver em vários blogs e canais literários, vi recentemente a tag no blog Conjunto da Obra, da Julia G., e decidi finalmente fazê-la aqui no Sacudindo Palavras.

TAG: Confissões de uma Bibliófila



1 - Qual é o gênero de literatura que você se mantém longe?
Costumo fugir de autoajuda. Não é a minha praia. Gosto de ler algo que me edifique de alguma forma, mas sem me dar fórmulas prontas de como viver a vida. É o tipo de literatura que não funciona comigo, mas não discrimino quem gosta. Cada um deve buscar ler o que lhe dá prazer e o que funciona pra si.

2 - Qual é o livro que você tem na estante e tem vergonha de não ter lido?
Na realidade, não ter lido todos já é motivo de vergonha. Porém, há uns que me dão muito mais vergonha de ainda não tê-los lidos. É o caso de As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, edição de 1987, traduzido por Carlos Drummond de Andrade. Foi presente de uma professora minha super querida do curso de Biblioteconomia. Não li ainda por medo de "machucar" o livro. É uma edição antiga e o livro está numa situação meio crítica, então não posso andar com ele por aí pra ler na rua. Eu mal fico em casa, então é complicado lê-lo agora. Vou prometer pra mim mesma que quando eu estiver de férias da natação, lerei esse livro. Sem falta. Sem desculpas. 

3 - Qual é o seu pior hábito enquanto leitor(a)?
Bem, acredito que não tenha vários hábitos ruins de leitura. O único que me lembro agora, e que é bem ruim porque me atrasa como leitora, é não ler todos os dias. Eu não tinha esse hábito antes de começar a graduação em Biblioteconomia. Eu lia todos os dias, pelo menos algumas páginas. No entanto, depois que comecei a Biblioteconomia, surgiram outras leituras e atividades, de modo que o meu tempo era bem corrido e não dava pra ler outra coisa além das coisas do curso. Agora, que as federais estão em greve, daria pra ler bem mais, mas então esse péssimo hábito que adquiri ainda continua nas minhas férias fora de época. Na maioria das vezes, é por causa do cansaço do treino. Como passo a manhã nadando, quando chego em casa por volta das 14h, só penso em dormir pra regenerar o corpo. Enfim, desculpas e mais desculpas esfarrapadas. Aliás, é por isso que o meu número de livros lidos por ano cai cada vez mais. Preciso separar mais tempo pra os meus queridinhos. Tê-los não é o suficiente: preciso lê-los!

4 - Você costuma ler a sinopse antes de ler o livro? Lê todos os livros para resenha que são enviados pelos parceiros? 
Comigo funciona da seguinte forma: geralmente, costumo ler a sinopse, mas evito ler sinopses que dizem muito do livro. Quando percebo que a sinopse quer me dizer mais do que eu quero saber, paro de lê-la e tento comprar o livro pra lê-lo. Há pessoas que resenham de modo que não deixam escapar nenhum mínimo detalhe do livro. Isso é raríssimo. É raro, mas quando quero comprar um livro, procuro não ler muitas resenhas acerca dele. Procuro ler uma ou duas resenhas daquelas pessoas que sei que não vão me contar nada além do que preciso saber pra me apaixonar pelo livro.

5 - Qual é o livro mais caro da sua estante?
Eis uma pergunta realmente difícil. Não tenho mil livros, mas tenho mais de 200, então eu não me recordo do que foi mais caro. Como sou muito apaixonadinha por livros, não costumo me ligar nesse detalhe de preço. Melhor dizendo: não que eu seja rica, estou muito longe disso, mas quando gosto de algo, dou um jeito de comprar. Só não compro mesmo se o preço for exorbitante. A vida é muito curta pra que a gente se prive do que de fato queremos.

6 - Você compra livros usados/em sebo?
Sim. Há vários sebos no centro da minha cidade, mas os preços geralmente são mais altos do que os preços dos livros que já vi em sebos de outros estados. Certa vez, fui competir em Belém e próximo ao hotel que fiquei hospedada, tinham alguns sebos. Fui lá e fiz a minha feirinha. Livros de edições antigas a preços muito bons. Comprei dois da Agatha Christie por R$ 5,00 cada. 

7 - Qual é a sua livraria (física) preferida?
Aqui, em Maceió, não há muitas livrarias. A maioria que tem é de cunho religioso, então não há variedade de estilos literários. Pelo que sei, só há uma que tem uma variedade considerável de livros é a Leitura, que fica no Parque Shopping, mas é longe pra caramba da minha casa. Só fui uma única vez lá. E adorei! Tem até uma cafeteria bem aconchegante dentro dela. Adorei! Se fosse mais perto da minha casa, iria lá muito mais vezes. 

8 - Qual é a sua livraria online preferida? 
Sem pensar duas vezes, respondo que é a Saraiva!

9 - Você tem um orçamento (mensal) para comprar livros?
Nunca separei assim, "ah, esse tanto aqui será pra eu comprar livros...", mas quando eu era bem desvairada com esse negócio de adquirir livros, comprava quase que mensalmente pelo menos um exemplar pra não deixar a minha mania abrandar. Hoje, não tenho mais essa necessidade de modo latente. Acho que isso deve ao fato de eu ter um bocado de livros não lidos aqui na minha estante. Quando der uma diminuída nos não lidos, ouso comprar mais. 

10 - Quem você “tagueia”?
Deixo em aberto. Quem quiser, pega e responde. Só não esquece de me avisar que fez, porque quero ler as respostas, combinado?

• • •
Por hoje, é só, pessoal. Se quiserem curtir a fan page do blog ou seguir no Twitter, cliquem aqui e aqui.
Vocês sabiam que eu sou nadadora paralímpica? Pois então... Se desejarem acompanhar meus passos na natação, cliquem aqui e curtam a minha fan page.
Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

11 julho 2015

Escreva alguma coisa



Mantenha a calma e escreva alguma coisa


Há um tempo que tenho pensado muito sobre essa coisa de escrever, em como me faz falta o exercício de reservar algumas horas do meu dia, sentar, ordenar as ideias (ou não) e deixar os dedos deslizar pelo teclado. Escrever, simplesmente. Qualquer coisa que seja; escrever regularmente é algo que eu gostava muito de fazer e, de repente, passei a negligenciar. Quando se tem um hábito e, por uma razão ou outra, ele é deixado de lado, é um pouco difícil retomá-lo. É o que acontece comigo há um bom tempo. Nos últimos quatro anos, tenho produzido bem menos em relação à escrita. O meu blog teve muito mais postagens nos anos de 2009 e 2010. Quantidade não é qualidade, tenho compreensão disso. No entanto, eu escrevia. De uma forma ou outra, a chama da inspiração se mantinha acessa em mim. Se os conteúdos eram ou não relevantes, se a escrita era ou não interessante, eu conseguia escrever sem dificuldades, sem “travar”, sem passar meses sem postar nada no blog.
Sou muito mais madura do que em 2009 e 2010, e é claro que isso se reflete nos temas que costumo abordar e no modo como escrevo hoje em dia. O que considero lamentável é que atualmente eu não tenho a mesma disposição de transformar parte dos meus pensamentos que deixam a minha cabeça fervilhando em palavras. Isso é péssimo. Digo o porquê: pra mim, escrever é terapia (mas não só isso, óbvio). Sei que dizer isso é piegas e clichê, mas é o que a escrita mais representa na minha vida. Faço questão de dizer que não me considero escritora, pois seria ousadia, e até mentira. Sou escritora porque escrevo, mas não acho que os meus escritos possam ser considerados como literatura, bem como nunca me passou pela cabeça viver da escrita. Porque, sim, há pessoas que nascem, crescem e têm em mente que são escritoras e que precisam viver daquilo, e para elas outra coisa não serve de jeito nenhum. Levam-se a sério demais, eu diria. Explico: focam-se tanto em escrever para publicar, para viver de escrever e vender livros, que acabam perdendo a diversão de escrever pelo prazer de escrever, de simplesmente viajar pelo mundo das palavras sem pretensão e/ou pressão.
A última postagem desse blog data do dia 31/05/2015. Lembro-me como se fosse hoje. Mentira, não lembro com precisão. Não lembro muito bem o que eu sentia ou o tempo que estava fazendo em Maceió nesse dia. Não lembro o que eu comi antes de começar a escrever ou que sonho eu tive na madrugada seguinte ao post. Não que isso importe, mas, talvez, se eu estivesse escrito algo ontem, eu relembraria melhor sobre o que eu vivi no dia anterior e poderia fazer um gancho no que estou escrevendo agora. A postagem de hoje é bem na linha dos devaneios, das filosofias baratas e da tristeza de alguém que tinha o hábito de escrever e o deixou de lado e agora quer inclui-lo novamente nos seus dias.
Keep calm and write something. Farei esse trato comigo mesma. Não sei se todos os dias, mas, com a maior frequência possível, sentarei em frente ao computador, ordenarei as ideias (ou não) e escreverei.
Porque escrever é algo do qual necessito pra me manter lúcida e leve. Quando escrevo, caço um fantasma e o envio de volta pra o além-mundo. Se escrevo, me sinto melhor. Escrever é se aliviar. É um dos modos de deixar vir à tona o que se passa em nossa mente e em nosso coração.
Faço um convite a você que está lendo isso agora: escreva alguma coisa também. Como você está hoje? Como está sendo o seu ano de 2015? Quais os planos que conseguiu atingir e quais não foram bem sucedidos? O que você gostaria de estar fazendo agora? Por que não faz?
Escreva! Alivie-se!

Erica Ferro

* * *
Esse é um daqueles posts de "Estou de volta, de novo e sempre".
Espero que eu não precise fazer outro por muito tempo!
Um abraço da @ericona.