23 setembro 2015

Eu estive na Trend House!

Sim, essa sou eu. Sim, numa passarela!

22.09.2015. Eis uma data pra guardar com carinho. Foi o dia em que brinquei de modelar na Trend House 2015, semana da moda alagoana. O evento foi no Memorial à República e eu desfilei no cast especial da Forum, formado apenas por pessoas com deficiência. Jamais imaginei que participaria de um evento de moda. Primeiro, porque não é exatamente minha praia e eu pouco (ou nada) entendo desse assunto. Segundo, porque durante boa parte da minha vida fui muito paranoica em relação a minha síndrome. Sempre digo que não ter uma das mãos e um dos pés, ou ter uma das pernas mais curta em cinco centímetros em relação a outra, nunca foi algo que me entristeceu ou me deprimiu. Se eu pudesse nascer novamente, gostaria de nascer igual (com exceção da paralisia facial); do contrário, talvez eu não tivesse a mentalidade que tenho e, sobretudo, essa visão sobre o mundo.
No entanto, outras sequelas da síndrome foram o que de fato me incomodaram bastante por anos a fio: o estrabismo e, sobretudo, a paralisia dos músculos responsáveis pela expressão facial.
Passei um bom tempo pra entender que "só se vê bem com o coração" e que "o essencial é invisível aos olhos".
O belo e o feio são conceitos abstratos. A máxima "A beleza está nos olhos de quem vê" é verdadeiríssima. 
Outra "verdade verdadeiríssima" é que somos mais que uma casca. Tudo o que há de físico em nós um dia se deteriorá. E o que sobrará, se internamente em nós nada existir de agradável? O nosso valor vai além de peitos siliconados, pernas marombadas, barriga tanquinho, sorriso de comercial de creme dental etc.
Suspeito que o que há de mais valoroso e essencial está dentro de nós.
Pois, que o melhor que há dentro de nós possa vir a tona. Que a maior beleza seja a de amar e praticar o bem sem cogitar ou exigir nenhum retorno.
A noite de ontem foi importante pra mim porque provei a mim mesma que eu posso vencer meus "traumas" e encarar cerca de 150 pessoas "do mundo da moda" sem me sentir menos interessante do que todos os outros seres do universo que não possuem a minha síndrome.
Encarei os muitos flashes com tranquilidade e naturalidade. Mostrei, com muita desenvoltura, esse rostinho paralisado congênito e esse meu olhar "asiático" na passarela.
Cada passo que dei na ida e na volta da passarela foi um modo de dizer a mim e principalmente aos outros que "pessoas são extraordinárias não pelo que elas aparentam fisicamente, mas sim pela energia e vibração que elas transmitem".

Transmitamos o amor e a alegria, então, com todo o nosso ser!

Ser diferente é super normal! O que não é nada normal é ser todo mundo igual!

Um abraço carinhoso,

Erica Ferro

* * *
Obs.: adorei MUITO esse clique do querido fotógrafo Guido JR. Obrigada, Guido! Você arrasa nas fotografias!

11 setembro 2015

Filme: Para Sempre Alice

Título: Still Alice (Original) / Para Sempre Alice (Brasil)
Ano de produção: 2014
Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Duração: 101 minutos
Gênero: Drama
País: Estados Unidos e França
Sinopse: A Drª. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguística. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha caçula, Lydia (Kristen Stewart), se aproximam.

Para Sempre Alice há muito estava na minha lista mental de filmes sobre os quais preciso pesquisar e assistir. A temática me chamou a atenção. Quando finalmente o assisti no feriado do dia 7 de setembro, parei e refleti bastante, inclusive a respeito de medos. Não lembrava de ter muitos medos, não realmente grandes e desconcertantes. E não tenho, a não ser o medo de esquecer: de mim, dos outros, do mundo, da vida, de tudo. Nunca parei pra pensar sobre isso porque realmente não é algo doce e agradável de se ficar pensando. Sendo assim, deu pra imaginar, ao menos um pouquinho, o total desespero e desolação de Drª. Alice Howland (Julianne Moore), uma incrível professora de Linguística, escritora e palestrante premiada, extremamente reconhecida em sua área, ao descobrir o seu Alzheimer precoce.




Alice sempre priorizou o conhecimento em sua vida. Para ela, o estudo e o conhecimento são uma espécie de passaporte para o sucesso pessoal e profissional. Em sua visão, um dos meios de se alcançar uma vida digna e com chances de reconhecimento era entrar numa Universidade. Sempre estudou muito e se dedicou quase que integralmente a vida acadêmica. Muito bem articulada, Alice esbanjava inteligência e coerência. Por esse motivo, discutia sempre com a filha caçula Lydia (Kristen Stewart), a única que não havia ingressado no mundo universitário. 




Eis, então, que um precoce Alzheimer resolveu cruzar o seu destino. Tudo começou quando, em uma palestra, ela esqueceu de um termo do campo linguístico: léxico. Daí, as coisas vão, aos poucos, se degringolando em sua vida acadêmica, bem como em sua vida pessoal. Ora bolas, Alice com Alzheimer? Mas ela só tem 50 anos! 




Não faz sentido, e chega a ser cruel. Como uma mente tão inteligente, tão culta, vai se deteriorando de tão arrasadoramente rápida? É muito desesperador. Nesse ponto do filme, meu cérebro já funcionava a todo vapor. Será que tudo nessa vida é em vão? O que vale a pena? Com o que realmente se deve gastar o nosso tempo de vida? Essa e muitas outras perguntas giravam loucamente na minha cabeça.




Uma das cenas que me levou às lágrimas foi o discurso de Alice num encontro de pessoas com Alzheimer e seus cuidadores. Eu fiz questão de digitá-lo, pois quero compartilhá-lo com vocês. Faz-nos pensar bastante acerca de vários pontos cruciais da nossa vida. Ei-lo: 
"Encontro-me aprendendo todos os dias a arte de perder. Perdendo minha compostura, perdendo objetos, perdendo sono, mas, principalmente, perdendo memórias. Durante a minha vida, acumulei muitas memórias. Elas se tornaram, de certa forma, meus bens mais preciosos: a noite em que conheci meu marido, a primeira vez que peguei meu livros nas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar o mundo. Tudo o que acumulei na vida, tudo pelo que trabalhei tanto, está tudo sendo arrancado de mim agora. Como podem imaginar, ou como sabem de fato, isso é um inferno. Mas fica pior. Quem nos levará a sério estando tão distantes do que éramos? Nosso comportamento estranho e frases atrapalhadas mudam a percepção que os outros têm de nós e também nossa autopercepção. Nós nos tornamos ridículos, incapazes, cômicos. Mas esses não somos nós. Essa é a nossa doença e, como qualquer doença, tem uma causa, tem uma progressão. E pode ter uma cura. Meu maior desejo é que meus filhos, nossos filhos, a próxima geração, não tenha que encarar o que estou encarando. Mas, por enquanto, continuo viva. Sei que estou viva. Tenho pessoas que amo demais. Há coisas que ainda quero fazer. Eu me condeno por não conseguir me lembrar das coisas, mas ainda tenho momentos de pura felicidade e alegria. E não pensem que estou sofrendo, por favor. Eu não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para ser parte das coisas. Para permanecer conectada à pessoa que eu era. Eu digo 'Viva o momento'. É tudo o que eu posso fazer. Tento não me punir demais... E não me punir demais por dominar a arte de perder. Mas uma coisa que eu vou tentar reter é a memória deste discurso hoje. Ela irá embora, eu sei que irá. Talvez já tenha ido amanhã. Mas significa muito estar falando aqui hoje, como o meu antigo 'eu' ambicioso, tão fascinado por comunicação." 



A ideia de ver as minhas memórias escorrerem pelos meus dedos quase me causa uma crise de pânico. Mas é uma possibilidade, é algo real. O Alzheimer pode abater qualquer um. Ninguém está livre. Em seu discurso, Alice diz que fala a si mesma pra viver o momento. E, de verdade, é isso que importa. Porque esse momento, o agora, é tudo o que você e eu temos, caro(a) leitor(a). Alice tentou, de todas as formas, não deixar as lembranças escaparem: usava o celular pra deixar lembretes pra si mesma. Em um dado momento, quando ela esquece de onde deixou o celular, entra em pânico. Como é que vai se lembrar de seu nome, idade, nome dos filhos, onde mora etc? 




A grande verdade é que não podemos controlar o inevitável. Alice tentou ao máximo que pôde recordar de si, dos outros e do mundo, mas o Alzheimer é escorregadio, não se pode domá-lo – ao menos por enquanto. 
Não sou crítica de cinema nem nada do gênero, mas, em minha leiga opinião, o roteiro e as atuações foram impecáveis. Julianne Moore dá um show na pele de Alice. Representou muito bem a fortaleza, doçura e, especialmente, a fragilidade de sua personagem em medidas exatas. Não foi sem razão que Para Sempre Alice lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz. Sobre a Kristen Stewart, já li umas opiniões bem fortes a respeito de sua atuação em outros filmes, a exemplo da tão famosa e badalada saga Crepúsculo (que eu nem vi nem pretendo, pois a temática não me instiga). E, honestamente, não achei Kristen tão mal como Lydia. Pelo contrário, dentre todos os personagens, Lydia foi quem se mostrou mais paciente e humana quando Alice mais precisou. Kristen não me decepcionou ao ser a filha que ficou ao lado da mãe até o fim. Alec Baldwin, como o marido John, me cativou de início, mas, embora haja explicações pra suas atitudes no desenrolar do filme, não há justificativas. É difícil vermos quem amamos se esquecendo de tudo, até mesmo de como se vestir? Deve ser, e muito. Porém, creio que não me perdoaria se abandonasse quem um dia amei e que também me amou, ainda que essa pessoa não soubesse mais que eu não estava mais ao seu lado, exatamente por não se lembrar mais de nada. Eu me lembraria, e isso me atormentaria até o fim da vida. Os outros personagens cumprem bem o seu papel. A fotografia do filme é belíssima e me deixou encantada. O tema é duro e isso não deixa de ser retratado no filme, mas é feito de uma forma dosada, que não se vê exageros ou apelações. Emocionou-me de uma forma ímpar e me lançou em vários caminhos reflexivos que me levaram a importantes conclusões acerca de vários aspectos da vida de uma forma geral e também da minha própria existência.




Para Sempre Alice joga na nossa cara algo que costumamos esquecer: não somos nada. Com isso, não quero dizer que não somos importantes ou que não temos valor. O que quero dizer é que de nada adiantar se vangloriar por ter um diploma de doutorado em alguma área. Não importa o quanto se é culto. Não importa o quanto se é rico. Não importa o quanto se é bonito. Simplesmente, não devemos ser vaidosos pelo que temos ou o que somos agora. Pois, no fim das contas, somos todos iguais. Somos poeira ao vento. Somos um sopro. Aqui e já, e depois não mais. 
Que possamos aproveitar o que de melhor existir nessa vida, com alegria, com coragem, com força e com a consciência de que, se pudermos escolher como viver, que decidamos por viver aquilo que nos dá prazer, que de fato nos faz bem. Que os céus nos livrem de dedicarmos nossas vidas aos outros, em função do que querem que façamos. Não negligenciemos os nossos desejos e os nossos sonhos. Só temos uma vida, e ela passa rápido feito fogo de palha. Cada minuto é precioso. Invistamos em felicidade pura e genuína. Amemos com toda a sinceridade que conseguirmos. Façamos o bem pelo prazer de ver o brilho no olhar do próximo. A vida é um mistério e estamos aqui talvez não pra desvendá-la, mas pra senti-la, tateá-la e absorver o que de mais sublime residir nela.
Que a nossa vida valha a pena, mesmo que, ao fim, nem ao menos lembremos dela. Que a sensação de estarmos vivos, e principalmente vivendo, nunca nos deixe. Que o bombear do nosso coração sirva como lembrete de que não somos tão jovens e/ou não temos todo o tempo do mundo.
Viver é raro. Viver é luxo. Luxemos, pois. Não fiquemos estáticos vendo os ponteiros dos relógios do mundo rondarem.
Movimentemo-nos. A vida é já. E já foi.

Trailer:


Erica Ferro

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*Os dados da ficha técnica e as imagens do filme foram encontrados no site AdoroCinema.

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06 setembro 2015

O iê-iê-iê da Jovem Guarda

Buenas, pessoas! Eu sou Ana Seerig. Há um tempo atrás eu era realmente ativa na blogosfera, mas faz um tempo que perdi esse hábito por uma razão ou outra. Continuo ativa com posts no blog O que tem na nossa estante e, como nesse caso, quando algumas amigas blogueiras me pedem um post sobre esse ou aquele tema. Bom, a dona Ferro acordou um dia querendo um post sobre a Jovem Guarda e, por alguma misteriosa razão, pediu pra mim (ou talvez não tão misteriosa assim, já que o universo todo sabe que aos 10 anos eu era apaixonada pelas músicas do Roberto Carlos da época da Jovem Guarda). Enfim, a Erica não me disse o que queria e nem quis querer alguma coisa, disse que eu devia querer e fazer o que eu quisesse (com todos os limites da cortesia social, claro). Então tá, se eu me empolgar demais a culpa é dela. Vamos lá:

No dia 22 de agosto de 1965, ou seja, há 50 anos, foi ao ar o primeiro Jovem Guarda. Liderado por Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, o programa foi pensado para preencher as tardes de domingo da tv Record depois do fim do contrato de transmissão dos jogos de futebol. Surgido como quebra-galho, ele acabou por dar nome ao movimento de jovens roqueiros que surgia no fim dos anos 50 e era protegido e guiado por Carlos Imperial. 

Erasmo, Wanderléa e Roberto
Sim, há muito o que se criticar na Jovem Guarda: a teima em ser apolítica e o consumismo exacerbado que ela desencadeou, por exemplo, mas uma coisa não pode ser esquecida: ela foi o primeiro movimento dos jovens. Em um mundo cheio de terninhos, vestidos e bossa nova, a febre do rock'n'roll foi tão grande como em qualquer outro lugar. Elvis Presley lutou no Vietnã em vez de, com sua fama e personalidade, levantar uma bandeira antiguerra, não foi? Os Beatles, quando cantavam inocentemente 'Please, please me' também não se preocuparam em se pronunciar contra a monarquia. Essas coisas, os hippies e punks fizeram depois, assim como o Tropicália liderado por Caetano e Gil fez aqui. Além disso, vale lembrar que o público da Jovem Guarda eram adolescentes de 12, 13, 14 anos, em maioria. 

A grande glória da Jovem Guarda foi criar um universo jovem em terras tupiniquins: roupas, músicas, gírias. Tudo era novo e foi aproveitado ao máximo por aquela turma até o 1968, quando o programa teve seu fim. As músicas começaram com versões de sucessos em inglês - versões que, em maioria, nada tinham a ver com as letras originais - mas logo se tornaram autorais, especialmente com sucessos da parceria de Roberto e Erasmo, líderes da geração (um mocinho, outro rebelde). 

Eu poderia ficar escrevendo aqui horas, mas ninguém leria - e eu, certamente, me repetiria. Então vou fazer uma lista de artistas e sucessos que acho especialmente simbólicos daquela geração, Infelizmente não é possível colocar tudo, mas pra quem não conhece, já vai dar pra conhecer um pouco mais e, bom, quem conhece ficará feliz em recordar, tenho certeza. 

Roberto Carlos: Conhecido por Brasa, RC foi o grande líder do movimento. Ele era o modelo que levava os elogios e, principalmente, as críticas dirigidas à juventude 'com guitarras'. Os sucessos foram muitos e são conhecidos e regravados até hoje: Eu sou terrível, É proibido fumar, O calhambeque, Quero que vá tudo pro inferno e É papo firme, por exemplo. Vou fugir de todas essas e pegar uma das minhas canções favoritas do álbum 'Jovem Guarda'.




Erasmo Carlos: O Tremendão era o verdadeiro espírito roqueiro. Se Roberto era mais romântico e 'bom moço', Erasmo tinha uma temática e uma postura bem mais sexual. Minha fama de mau é sem dúvida uma música-símbolo dele, mas vou pegar outra: 



Os Incríveis: banda pela qual sou completamente apaixonada. Devemos a eles as músicas Era um garoto que como eu amava os Beatles e Rolling Stones e O vagabundo (não, não são do Engenheiros do Hawaii), versões de músicas italianas. Mas, a meu ver, devemos especialmente o crédito pela belíssima música instrumental que faziam: O milionário, See saw, Czardas... mas eu adoro mesmo essa: 


Renato e seus Blue Caps: Muitas vezes eles são lembrados pelas versões que fizeram dos Beatles, como Menina linda, Ana e Feche os olhos, mas Renato Barros foi autor de grandes sucessos até hoje conhecidos, como Devolva-me, gravado originalmente por Leno e Lílian e recentemente gravado por Adriana Calcanhoto. Claro que vou fugir das versões. Ficamos com essa:


Eduardo Araújo: junto com Carlos Imperial, ele compôs uma das músicas mais simbólicas daquela geração e, apesar de nunca ter participado do programa Jovem Guarda, é inevitável ligá-lo ao movimento. Ah sim, além dessa música que vou colocar aqui, outro sucesso que compôs com Imperial foi Vem quente que eu estou fervendo, gravada então por Erasmo.



Putz, ficou muita, mas muita coisa de fora, mas era inevitável, certo? Pra quem se interessar, tem muita, mas muita coisa no YouTube. Divirtam-se por lá! 

Erica, obrigada pelo convite! Espero que o post tenha saído de acordo com o que tu queria! (Eu sei, tu não queria nada, eu é que tinha que querer e blábláblá.) Desculpa ter me empolgado com os vídeos - tentei resistir! (A prova disso é que não transformei as músicas que citei em link.) Enfim, espero que tu e teus leitores gostem de ler e ouvir um pouco mais da Jovem Guarda. E, sempre que quiser, estou às ordens!